Antes da aplicação, queimaduras superficiais são feitas na pele dos participantes — normalmente nos braços ou nas pernas, muitas vezes em fileiras organizadas. A toxina é colocada diretamente sobre essas feridas abertas por um suposto xamã. Em questão de minutos, o organismo reage de forma agressiva.
Os relatos mostram pessoas vomitando em baldes, com rostos inchados e expressões de dor intensa, enquanto sofrem episódios severos de vômito, tonturas, desmaios e diarreia. Quem pratica o ritual de detox apresenta essas reações violentas como uma espécie de “purificação”, que supostamente eliminaria toxinas do corpo. Não existe, porém, evidência científica que sustente essa alegação nem que comprove eficácia para qualquer condição médica.
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Entrar no grupo Celebridades que aderiram à prática
Entre os adeptos estão nomes de peso do entretenimento. O ator britânico Orlando Bloom, conhecido por suas participações nas franquias “O Senhor dos Anéis” e “Piratas do Caribe”, revelou à revista “GQ” que se submeteu ao tratamento diversas vezes. Ele classificou a experiência como “brutal”, relatando episódios intensos de vômito, mas afirmou que o processo proporcionou uma sensação posterior de “limpeza e abertura”.
A estrela de reality show britânica Ferne McCann e o ator americano Will Smith também figuram entre os famosos que já participaram do ritual. No Brasil, o DJ e produtor Alok teria experimentado o procedimento durante imersões na Amazônia.
Além das celebridades, executivos e engenheiros de empresas de tecnologia na Califórnia, nos Estados Unidos, passaram a buscar o kambô como forma de obter um suposto “reinício” mental e físico para enfrentar o estresse crônico do ambiente corporativo de alta performance.
A morte do coach britânico Kristian Trend
O caso que trouxe o kambô de volta ao centro das atenções foi a morte de Kristian Trend, um coach de bem-estar e sobrevivente de câncer. Ele teria sofrido uma reação extrema durante uma cerimônia de kambô realizada em um apartamento em Leicester, na Inglaterra. Um homem de 41 anos foi preso sob suspeita de ter administrado o veneno, mas foi liberado sob fiança. Segundo a polícia, as investigações continuam em andamento.
Falta de regulamentação preocupa especialistas
“Esses profissionais não possuem licença nem treinamento. Tampouco precisam ser certificados por qualquer entidade com qualquer tipo de reconhecimento legal”, afirmou Jae Lee, advogado especializado em lesões corporais, ao “Sun”. “A falta de regulamentação dessas práticas torna muito difícil responsabilizar os praticantes de kambô por negligência. Se não houver um padrão de cuidado estabelecido, é muito mais difícil comprovar negligência, já que não existe um padrão de competência reconhecido”, completou ele.
Ao menos seis mortes registradas globalmente
Kristian Trend é considerado uma das pelo menos seis pessoas no mundo que perderam a vida após o uso da substância — e representa o único caso conhecido até agora no Reino Unido. Outra vítima foi a cineasta mexicana Marcela Alcázar Rodríguez, que faleceu aos 33 anos em dezembro de 2024. Logo após o início do ritual com o veneno do anfíbio amazônico, ela apresentou vômitos violentos e diarreia severa. Levada às pressas ao hospital da Cruz Vermelha em Durango, no México, não resistiu.
Origens indígenas e a popularização urbana
O kambô tem raízes em tradições ancestrais de povos da Amazônia. Etnias como Katukina, Yawanawá e Kaxinawá utilizam a substância para combater a “panema” — conceito que abrange energia negativa, má sorte ou apatia — funcionando como um revigorante físico e espiritual. O procedimento é tradicionalmente conduzido por xamãs indígenas ou curandeiros, conhecidos em algumas regiões do norte do Brasil como “sapeiros”, e faz parte do conjunto de práticas da medicina indígena amazônica.
Com o tempo, o ritual ultrapassou as fronteiras das comunidades tradicionais, alcançou centros urbanos e foi “exportado” para outros países.
Proibições e a persistência do comércio online
No Brasil, a prática foi proibida em 2004 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em razão da ausência de comprovação de segurança ou eficácia. A decisão veio como resposta a campanhas publicitárias e matérias que promoviam o uso do kambô sem mencionar seus riscos. A Austrália também vetou a prática após a morte de Natasha Lechner em 2019. No Chile, a proibição igualmente está em vigor.
Apesar das restrições, os riscos continuam sendo ignorados no ambiente digital. Diversos sites britânicos comercializam bastões de kambô já impregnados com a toxina seca por valores que giram em torno de R$ 440, em média.