Prisões cresceram após ofensiva militar e econômica de Washington contra o regime chavista
As forças de segurança da Venezuela intensificaram, nos últimos meses, a prisão de cidadãos dos Estados Unidos, em um contexto de aumento da pressão militar e econômica imposta por Washington ao governo de Nicolás Maduro. As informações foram relatadas por uma autoridade norte-americana com conhecimento direto do tema ao jornal The New York Times (NYT).
Segundo a fonte, que falou sob condição de anonimato por não ter autorização para comentar publicamente, parte dos detidos enfrenta acusações criminais consideradas legítimas. Ainda assim, o governo dos Estados Unidos avalia que ao menos dois desses presos podem ser classificados como detidos ilegalmente.
Quem são os cidadãos norte-americanos detidos
Entre os presos estão três pessoas com dupla nacionalidade — venezuelana e norte-americana — além de dois cidadãos dos EUA sem vínculos prévios com o país sul-americano. A identidade da maioria dos detidos não foi divulgada oficialmente, o que dificulta o acompanhamento dos casos por familiares e autoridades consulares.
De acordo com o NYT, Washington acompanha a situação com preocupação, especialmente diante do histórico do governo venezuelano no uso de prisioneiros estrangeiros como instrumento de barganha diplomática.
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Detenções como moeda de troca política
Nicolás Maduro tem utilizado, há anos, cidadãos norte-americanos presos — culpados ou inocentes de crimes graves — como moeda de troca em negociações com os Estados Unidos. A libertação desses detidos foi tratada como prioridade durante os dois mandatos do presidente Donald Trump.
Logo no início do segundo mandato, Trump enviou um emissário especial, Richard Grenell, à Venezuela para negociar um acordo envolvendo prisioneiros. Como resultado dessas conversas, 17 cidadãos dos EUA e residentes permanentes foram libertados, segundo o NYT.
Suspensão de negociações e retomada das prisões
O avanço das libertações, no entanto, foi interrompido quando as negociações deram lugar a uma nova campanha de pressão militar e econômica contra o regime de Maduro. Desde então, o fluxo de libertações cessou, e o número de norte-americanos presos voltou a crescer.
Entre setembro e dezembro, houve um aumento significativo nas detenções, coincidindo com o envio de uma frota naval dos Estados Unidos ao Caribe e com o início de ataques aéreos contra embarcações acusadas pela Casa Branca de transportar drogas sob ordens do governo venezuelano.
Escalada militar e impacto econômico
Em dezembro, Washington intensificou ainda mais a pressão, mirando navios petroleiros venezuelanos. A ofensiva atingiu diretamente a principal fonte de exportações do país, agravando a crise econômica interna.
A Embaixada dos Estados Unidos na Colômbia, responsável pelos assuntos diplomáticos relacionados à Venezuela, se recusou a comentar a situação dos cidadãos norte-americanos detidos. O Departamento de Estado também não respondeu aos questionamentos feitos pelo NYT.
Caso de viajante desaparecido chama atenção
Entre os detidos recentemente está James Luckey-Lange, de 28 anos, natural de Staten Island, em Nova York. A família relatou seu desaparecimento pouco depois de ele cruzar a instável fronteira sul da Venezuela, no início de dezembro.
Luckey-Lange é filho da musicista Diane Luckey, conhecida artisticamente como Q Lazzarus, que ganhou notoriedade com o single Goodbye Horses, lançado em 1988. Segundo o NYT, ele pode ser um dos dois cidadãos norte-americanos considerados possivelmente detidos de forma ilegal.
Amigos e familiares afirmam que Luckey-Lange era entusiasta de viagens e lutador amador de artes marciais. Após se formar na faculdade, trabalhou na pesca comercial no Alasca e iniciou uma longa viagem pela América Latina em 2022, depois da morte da mãe. O pai faleceu em 2025.
“Ele tem viajado, tentando descobrir o que fazer da vida”, disse a cineasta Eva Aridjis Fuentes, que trabalhou com ele em um documentário sobre Q Lazzarus. “Ele passou por muitas perdas.”
Não está claro se Luckey-Lange possuía visto válido para entrar na Venezuela, exigência legal para cidadãos dos EUA. Sua tia, Abbie Luckey, afirmou ao NYT que não recebeu qualquer contato de autoridades norte-americanas e busca informações sobre o paradeiro do sobrinho.
Relatos de abusos em prisões venezuelanas
Cidadãos dos EUA libertados no início deste ano relataram condições consideradas abusivas e a ausência de devido processo legal durante o período de detenção. Muitos afirmaram não ter sido formalmente acusados, e poucos chegaram a ser condenados.
Um dos relatos é o de Renzo Huamanchumo Castillo, peruano-americano de 48 anos, preso após viajar à Venezuela para conhecer a família da esposa. Ele foi acusado de terrorismo e de conspirar para matar Maduro, acusações que classificou como infundadas.
“Percebemos depois que eu era apenas uma moeda de troca”, disse Huamanchumo, que relatou agressões frequentes e o recebimento diário de apenas um litro de água barrenta na prisão de Rodeo I. “Foi a pior coisa que se pode imaginar.” Ele foi libertado em julho, em uma troca de prisioneiros.
Outros casos ainda sem solução
Segundo familiares, ao menos outras duas pessoas com vínculos com os Estados Unidos continuam presas na Venezuela: Aidel Suarez, residente permanente dos EUA nascido em Cuba, e Jonathan Torres Duque, cidadão com dupla nacionalidade venezuelana e norte-americana.
