Prisão na segunda fase da Operação Hipócrates II
Barros foi detido nesta terça-feira, 26, por agentes da Delegacia de São Miguel Paulista durante a segunda fase da Operação Hipócrates II. Ele e outro suspeito, Mayke César Silva, são investigados por terem se passado por médicos — sem qualquer formação na área — em uma clínica particular localizada na zona leste de São Paulo.
Mayke já era alvo da primeira fase da mesma operação, realizada em dezembro do ano passado. Desde então, ele está foragido. Segundo as apurações policiais, ele fugiu para o Chile, onde permanece até o momento.
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Entrar no grupo Mais de 2 mil atendimentos em dois anos
A dupla atuou durante dois anos como plantonistas do Hospital Jardim Helena, em São Miguel Paulista, trabalhando nos finais de semana. As investigações apontam que, nesse período, eles realizaram mais de 2 mil atendimentos. O Estadão busca contato com a clínica para obter posicionamento.
O inquérito policial apura a ocorrência de pelo menos nove mortes de pacientes que teriam sido atendidos pelos chamados falsos médicos. Segundo o delegado Mariano de Araújo, ao menos um desses óbitos teve como causa confirmada um erro de procedimento médico. Para os outros oito casos, os laudos ainda estão em fase de conclusão.
Laudo confirma erro fatal em paciente cardíaca
“Desses nove, já temos um laudo do IML (Instituto Médico Legal) atestando que o erro de procedimento deu causa mortis”, disse o delegado Araújo, que detalhou o episódio.
“Era uma senhora que estava com problemas no coração. Ela ficou oito horas sem que fosse feito um exame cardíaco que apontaria que ela estava tendo um aneurisma na aorta. por conta desse intervalo de tempo tão longo. O que aconteceu? Ela morreu”, relatou.
A lista completa de pacientes atendidos por Marcos Phelipe e Mayke ainda está sendo periciada. Por isso, os investigadores afirmam que o número de mortes associadas aos dois pode crescer.
Caso de dengue expôs total despreparo dos suspeitos
Funcionários da clínica de São Miguel Paulista, ouvidos durante o inquérito, descreveram os dois suspeitos como pessoas de comportamento “infantil”, “irresponsável” e com evidente inexperiência profissional. Relataram ainda que ambos chegavam a dar ordens a outros trabalhadores enquanto dormiam durante o plantão.
O delegado Araújo citou um caso emblemático dessa incompetência. “A moça já estava diagnosticada com dengue. Chegou lá, com nível de plaquetas muito baixa. Eles não sabiam como proceder. Ela passou a ficar em uma situação delicada até que teve uma parada cardíaca e eles não sabiam como ressuscitar”, lembrou.
“Era uma manobra que, para alguém da Medicina, com conhecimento técnico, seria simples. (Mas) O resultado foi catastrófico”, acrescentou o delegado.
Documentos falsos e identidades roubadas de médicos reais
Para sustentar a farsa, os dois adotaram uma estratégia comum: utilizar dados de profissionais legítimos já formados. Marcos Phelipe de Barros se apropriou das informações de um médico identificado apenas como Nicolas, que atua em Marília, no interior do estado. Já Mayke César Silva usava os dados de um homônimo que exerce a profissão em Catanduva, também no interior paulista.
“Os bandidos tinham cópias do CRM (Conselho Regional de Medicina) e do diploma”, afirmou o delegado Araújo. Ele acrescentou que os médicos verdadeiros chegaram a relatar problemas decorrentes da atuação clandestina. “Não se conheciam (os falsos médicos), nunca tiveram contato. O Nicolas nunca esteve nesta região da zona leste”, afirmou.
As investigações revelaram que Mayke possui formação como biomédico. Marcos, por sua vez, chegou a cursar alguns semestres de Medicina, mas não concluiu a graduação. Apesar de não se conhecerem previamente por meio dos médicos cujas identidades usurparam, os dois eram próximos entre si. A polícia apurou ainda que Marcos Phelipe exerceu ilegalmente a profissão também em Taboão da Serra.
Denúncia anônima levou às investigações
Todo o caso veio à tona a partir de uma denúncia encaminhada ao sistema do Disque-Denúncia. Com base nessa informação, os investigadores iniciaram as apurações e identificaram primeiro que Mayke atuava como falso médico. Na primeira fase da operação, porém, a polícia não conseguiu localizá-lo. Para escapar, ele deixou o país rumo ao Chile.
O delegado Araújo revelou ainda que os responsáveis pela clínica teriam agido para dificultar o trabalho policial na ocasião da primeira fase.
Gestores da clínica são afastados e têm passaportes apreendidos
Na etapa deflagrada nesta terça-feira, Daniela Antunes Krauthamer, gestora administrativa do Hospital Jardim Helena, e Fábio das Neves Filho, diretor clínico da unidade, foram alvos de medidas cautelares. Ambos tiveram os passaportes apreendidos e foram afastados de suas funções. Após serem ouvidos, foram liberados.
“A direção foi alertada e estava ciente do que eles faziam”, disse o delegado. Os dois não foram presos, mas seguem sendo investigados. A defesa de ambos não foi localizada pela reportagem.