A frase que transforma presidente em profeta
“Esse é o verdadeiro ungido de Deus”, afirmou Janja, em tom de exaltação. “Esse, sim, é o homem que quer que todos tenham uma vida digna.” As palavras ecoaram em meio a milhares de apoiadores no ato de campanha realizado na capital piauiense.
A primeira-dama procurou justificar a sacralização listando supostas realizações do governo Lula em áreas como combate à fome, saúde, educação, cultura e economia. Segundo ela, o presidente teria ampliado oportunidades para diferentes grupos da população. Méritos governamentais, portanto, foram embalados em linguagem messiânica — uma combinação que deveria causar desconforto em qualquer democracia minimamente sóbria.
Receba no WhatsApp as principais noticias do diaEntre no grupo do ContraFatos e acompanhe os destaques em primeira mao.
Entrar no grupo A disputa pela “unção” — quando a política vira teologia
A declaração não surgiu do nada. Ela se insere em um contexto de clara disputa simbólica pelo território religioso. Poucos dias antes, no domingo 6, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro havia publicado mensagem em apoio ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), referindo-se ao magistrado como “escolhido e ungido do Senhor”.
Embora Janja não tenha mencionado nem Michelle nem Mendonça diretamente em seu discurso, a resposta foi evidente. O que se viu foi uma corrida para ver qual lado político consegue se apropriar mais descaradamente do sagrado — como se Deus fosse cabo eleitoral.
Ataques à família Bolsonaro em tom incendiário
No mesmo evento em Teresina, Janja não se limitou a canonizar o marido. Direcionou também ataques contundentes à família Bolsonaro, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro.
“Se dependesse dos Bolsonaro, os nordestinos estavam comendo capim”, declarou, arrancando reações da plateia. “Vocês lembram disso. A família não tem projeto para este país.”
A primeira-dama prosseguiu com um panorama sombrio do governo anterior: “O Brasil em que as mulheres tiveram que ir para fila do osso para conseguir alimentar suas famílias”, disse. “No governo da família Bolsonaro, nós vivemos o Brasil das filas dos hospitais, do abandono e do medo.”
Messianismo político: a quem serve essa retórica?
É preciso perguntar o que se ganha quando uma primeira-dama transforma uma figura política em entidade quase divina. Atribuir a um governante a condição de “ungido de Deus” não é mero recurso retórico — é a instrumentalização da fé para fins eleitorais. Trata-se de colocar o voto no mesmo patamar de um ato de devoção, tornando a crítica ao governo quase uma heresia.
A fala de Janja ocorreu durante ato de campanha de Lula em Teresina. Antes do comício, o presidente havia cumprido compromissos administrativos na capital piauiense. Mas o que ficou na memória — e o que certamente alimentará o debate político nas próximas semanas — foi a tentativa de transformar eleição em revelação divina.
Segundo Janja, o bolsonarismo buscaria favorecer apenas um projeto pessoal. Irônico, considerando que proclamar o próprio marido como ungido celestial não é exatamente o exemplo mais acabado de desprendimento político.