Polarização com ACM Neto marca o cortejo
O desfile também evidenciou a disputa que promete definir o cenário político baiano em 2026. O ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil), herdeiro político do grupo liderado por seu avô, Antônio Carlos Magalhães, desponta como principal adversário de Jerônimo na corrida pela reeleição.
ACM Neto também recebeu vaias ao chegar ao desfile, mas tratou o episódio com naturalidade. Em entrevista coletiva, foi direto: “Aplausos, vaias… isso tudo faz parte da beleza da democracia. A gente já está adaptado.”
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Entrar no grupo Bahia governada pelo PT há quase duas décadas mostra rachaduras
O estado é governado pelo PT ininterruptamente desde 2007, e foi justamente essa longevidade no poder que transformou a Bahia em peça-chave para o projeto nacional do partido. Na eleição presidencial de 2022, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conquistou 72,11% dos votos válidos no estado e venceu em aproximadamente 90% dos municípios baianos. No mesmo pleito, Jerônimo Rodrigues se elegeu governador já no primeiro turno, com 52,79% dos votos válidos.
No entanto, as vaias no desfile de 2 de Julho — um dos eventos mais simbólicos do calendário político baiano, que reúne anualmente autoridades, movimentos sociais e milhares de cidadãos nas ruas de Salvador — sugerem que a hegemonia petista no Nordeste já não é tão sólida quanto os números eleitorais de 2022 faziam crer.
Ausência de Lula no desfile levanta questionamentos
Outro fato que chamou atenção foi a ausência do presidente Lula no cortejo. Desde a campanha presidencial de 2022, o petista havia transformado o desfile do 2 de Julho em uma das principais agendas políticas do calendário baiano, participando anualmente das comemorações da Independência da Bahia. Desta vez, porém, Lula optou por não ir a Salvador e manteve compromissos no interior do estado apenas no dia 1º de julho.
Estratégia para distanciar Lula de Jaques Wagner
Segundo interlocutores do partido ouvidos pela VEJA, a mudança de agenda está relacionada ao esforço da pré-campanha presidencial para reduzir a exposição pública de Lula ao lado do senador Jaques Wagner (PT-BA), um de seus aliados históricos mais próximos. O ex-governador da Bahia deixou recentemente a liderança do governo no Senado após ter seu nome citado nas investigações da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas envolvendo o empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.
Apesar da tentativa de distanciamento, Lula esteve ao lado de Wagner na quarta-feira, durante agenda em Alagoinhas, no interior baiano. No discurso, voltou a chamá-lo de “irmão” — um gesto que, segundo relatos de dirigentes petistas, provocou incômodo entre integrantes do partido e da equipe responsável pela estratégia eleitoral de 2026.
PT enfrenta sinais de esgotamento no Nordeste
O conjunto de episódios — vaias ao governador, ausência calculada de Lula, desgaste de alianças internas e o avanço de adversários como ACM Neto — compõe um cenário preocupante para o PT. O partido, que durante anos tratou o Nordeste como seu quintal eleitoral seguro, agora precisa lidar com uma realidade diferente: a de que o apoio popular pode estar se dissipando justamente onde parecia inabalável.