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93% da população no Bolsa Família: o caso chocante de Itaubal

Sem produção, sem mercado, sem autonomia — só dependência organizada

O que exatamente sobra de uma cidade quando quase tudo depende do governo?

Itaubal, no interior do Amapá, tem cerca de 6 mil habitantes. Noventa e três por cento da população recebe Bolsa Família. No setor privado, apenas 28 pessoas têm carteira assinada. Vinte e oito. Um emprego formal para cada 215 moradores. E a prefeitura mantém mais de 600 servidores ativos. Não é só um retrato de pobreza. É um retrato de um modelo.

E é aí que a história complica.

Porque não se trata apenas de carência social. Trata-se de uma engrenagem política muito conhecida no : o poder público substitui a economia, ocupa o espaço do mercado, distribui renda sem criar autonomia e depois chama isso de “assistência”. Assistência a quem? Ao cidadão ou ao sistema que se alimenta da dependência?

Itaubal recebeu R$ 54 milhões ao longo de 2025 para sustentar a máquina e a cidade. Ao mesmo tempo, sua receita anual é de R$ 900 mil. O contraste fala por si. A cidade praticamente não se sustenta. Ela é sustentada. Por Brasília. Pelo contribuinte. Pela lógica de transferências permanentes. Não por atividade econômica local, não por investimento privado, não por dinamismo produtivo.

Mas há um detalhe.

Quando 93% da população depende do Bolsa Família, não estamos diante de uma política emergencial. Estamos diante de uma forma de organização social. Quando só 28 pessoas têm emprego formal no setor privado, o problema não é apenas falta de oportunidade. É ausência quase completa de ambiente econômico. E quando há mais de 600 servidores ativos na prefeitura, a pergunta deixa de ser administrativa e passa a ser política: quem emprega, manda. Quem paga, condiciona. Quem distribui, acumula influência.

Agora compare.

Sempre que alguém questiona esse modelo, a resposta vem pronta: “vocês são contra os pobres”. É o truque retórico de sempre. Como se criticar a perpetuação da dependência fosse o mesmo que defender abandono. Não é. O que está em debate não é a existência de ajuda social em situações de vulnerabilidade. O que está em debate é a transformação dessa ajuda em estrutura permanente de sobrevivência coletiva, sem porta de saída, sem horizonte de emancipação, sem economia real.

E o resultado aparece no chão da cidade.

Menos de 30 carros circulando. Não há bancos. Não há supermercados. Apenas pequenas vendas para abastecimento diário. Apesar do grande volume de dinheiro público, Itaubal não prospera. Eis a questão que os discursos oficiais sempre tentam contornar: por que tanto dinheiro entra e tão pouco desenvolvimento fica? Para onde vai a capacidade de transformar repasse em crescimento? Onde está a contrapartida em infraestrutura, empreendedorismo, atividade produtiva, segurança jurídica, formação profissional?

A resposta é incômoda. Porque esse tipo de arranjo interessa a muita gente.

Interessa aos que defendem programas sociais sem admitir que eles fracassam quando viram destino, e não transição. Interessa aos grupos políticos locais, que passam a controlar empregos públicos e a intermediar a sobrevivência cotidiana. Interessa ao discurso fácil, que vende compaixão enquanto administra estagnação. E interessa também à velha elite burocrática brasileira, que trata pobreza como ativo político — nunca como tragédia a ser superada de fato.

Numa cidade assim, o cidadão corre o risco de deixar de ser cidadão para virar dependente em tempo integral. Dependente do benefício. Dependente da prefeitura. Dependente do humor do poder. E toda dependência prolongada cobra seu preço: enfraquece a liberdade, reduz a iniciativa e corrói a responsabilidade pública. Afinal, se o dinheiro vem de fora, se o emprego está no Estado e se a sobrevivência depende do repasse, quem cobra resultado? Quem confronta o fracasso? Quem rompe o ciclo?

O caso de Itaubal é extremo, mas não é isolado. Ele apenas expõe, sem maquiagem, um modelo que se espalhou pelo país: o Brasil que gasta muito, transfere muito, emprega muito no setor público e entrega pouco em autonomia, prosperidade e dignidade duradoura. É a política da manutenção. Nunca da transformação.

No fim, a pergunta mais séria não é como Itaubal sobrevive.

É outra.

Até quando o país aceitará chamar de justiça social um sistema que mantém cidades inteiras sem mercado, sem independência e sem futuro?

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