Projeto do governo Lula fortalece o Cade e propõe novas regras para concorrência no mercado digital
A Câmara dos Deputados decidiu acelerar a análise de um projeto considerado estratégico para o setor de tecnologia no Brasil. Nesta quarta-feira, 18, os parlamentares aprovaram o regime de urgência da proposta enviada pelo governo federal, voltada à regulação da concorrência no ambiente digital.
Com 276 votos favoráveis e 186 contrários, o texto passa a tramitar de forma mais rápida, sem necessidade de análise prévia pelas comissões temáticas antes de ir ao plenário para votação final.
Origem da proposta e mudanças no escopo
Encaminhada ao Congresso pelo Ministério da Fazenda em setembro do ano passado, a iniciativa fazia parte de um pacote mais amplo. Inicialmente, o conjunto previa também regras relacionadas ao conteúdo publicado em plataformas digitais.
No entanto, o governo optou por dividir o projeto. Assim, seguiu adiante apenas a parte que trata das práticas anticoncorrenciais envolvendo grandes empresas de tecnologia.
Novo papel do Cade no ambiente digital
Criação de estrutura dedicada
O projeto estabelece a criação de uma Superintendência de Mercados Digitais dentro do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). A nova área teria atribuições específicas para lidar com o setor tecnológico.
Entre as funções previstas estão a abertura de investigações contra empresas e a emissão de orientações ao mercado. A proposta amplia, dessa forma, o alcance do órgão regulador sobre um segmento que ainda não conta com legislação específica no país.
Critérios para plataformas de “relevância sistêmica”
O texto também define quais empresas serão alvo das novas regras. Serão consideradas de “relevância sistêmica” as plataformas cujos grupos econômicos tenham:
- Faturamento bruto global acima de R$ 50 bilhões por ano; ou
- Receita superior a R$ 5 bilhões anuais no Brasil
As companhias enquadradas nesses critérios passarão a cumprir obrigações voltadas à preservação da concorrência.
Relatoria e exemplos práticos
Responsável pelo relatório, o deputado Aliel Machado (PV-PR) defende a inclusão de mecanismos para impedir práticas como formação de cartéis e domínio excessivo sobre preços.
Outro ponto destacado é a possível imposição de serviços ligados aos países de origem dessas empresas. Um exemplo citado durante os debates envolve a Apple e o Pix: a empresa não aceita o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos em sua loja de aplicativos, exigindo o uso de cartão de crédito.
Pressão política e estratégia de tramitação
A decisão de adotar o regime de urgência também tem motivação política. Desde que o projeto entrou na pauta, o gabinete de Aliel Machado recebeu 50 pedidos de audiência sobre o tema.
O parlamentar utilizou estratégia semelhante na tramitação da lei do mercado de carbono, avaliando que o rito acelerado reduz a pressão de diferentes grupos sobre o processo legislativo.
Reação das empresas de tecnologia
A proposta enfrenta resistência de grandes empresas do setor. Em outubro do ano passado, o Conselho Digital — que reúne companhias como Amazon, Google, Meta, TikTok, OpenAI e Uber — divulgou nota crítica ao projeto.
Segundo a entidade, a medida pode aumentar custos operacionais, limitar o acesso a novas tecnologias e desestimular investimentos no Brasil.
Já a Câmara Brasileira da Economia Digital, que representa empresas como Mercado Livre, iFood e Visa, classificou a urgência como “incompatível com a complexidade do texto atual”.
Avaliação da sociedade civil
Organizações da sociedade civil também se posicionaram. A Coalizão Direitos na Rede reconheceu a importância de dotar o Cade de instrumentos para atuar nos mercados digitais.
Ainda assim, a entidade avaliou que as medidas previstas no projeto são “limitadas e insuficientes” diante dos desafios do setor.