Pesquisadores sugerem que fenômeno faz parte de um ciclo natural de décadas no interior do planeta
Um estudo conduzido por cientistas da Universidade de Pequim sugere que o núcleo interno da Terra pode ter desacelerado até quase parar e possivelmente iniciado uma rotação em sentido inverso.
A pesquisa, conduzida pelos cientistas Yi Yang e Xiaodong Song, ganhou destaque ao analisar dados sísmicos registrados desde a década de 1960.
Os pesquisadores utilizaram ondas sísmicas geradas por terremotos que atravessaram o núcleo interno em trajetórias semelhantes ao longo das décadas para estimar mudanças na velocidade de rotação dessa camada profunda do planeta.
Estrutura do interior da Terra
A Terra possui quatro camadas principais:
- crosta
- manto
- núcleo externo
- núcleo interno
O núcleo interno sólido fica a cerca de 5.100 quilômetros abaixo da superfície e é separado do manto por um núcleo externo líquido. Essa camada líquida permite que o núcleo interno gire em velocidade diferente da rotação do planeta.
Com um raio próximo de 3.500 quilômetros, o núcleo terrestre tem aproximadamente o tamanho do planeta Marte. Ele é composto principalmente por ferro e níquel e concentra cerca de um terço da massa da Terra.
Sinais de desaceleração na última década
Segundo os pesquisadores, mudanças observadas nas ondas sísmicas indicam que a rotação do núcleo interno quase cessou por volta da última década.
“Mostramos observações surpreendentes que indicam que o núcleo interno quase cessou sua rotação na última década e pode estar passando por um retrocesso”, escreveram os autores.
Os cientistas observaram que registros sísmicos que antes apresentavam variações significativas passaram a mostrar poucas diferenças entre 2010 e 2020, sugerindo uma desaceleração.
Possível ciclo de aproximadamente 70 anos
De acordo com Yang e Song, essa mudança pode fazer parte de um ciclo natural de cerca de sete décadas.
Segundo o modelo proposto pelos pesquisadores, uma inversão semelhante teria ocorrido no início da década de 1970.
Eles afirmam que pequenos desequilíbrios entre forças eletromagnéticas e gravitacionais podem alterar a velocidade do núcleo interno ao longo do tempo.
Cientistas pedem cautela
O geofísico Hrvoje Tkalcic, da Universidade Nacional Australiana, que não participou do estudo, afirmou que os dados apresentados são consistentes, mas que o fenômeno deve ser interpretado com cautela.
Segundo ele, o núcleo interno não para completamente de girar.
Para o pesquisador, a descoberta sugere apenas que o núcleo está mais sincronizado com a rotação do restante do planeta do que estava anteriormente.
“Nada cataclísmico está acontecendo”, explicou.
Estudar o interior da Terra ainda é um desafio
Tkalcic também destaca que compreender o interior do planeta é extremamente difícil.
Isso ocorre porque as estruturas analisadas estão milhares de quilômetros abaixo da superfície, impossibilitando observação direta.
Por isso, os cientistas dependem de métodos indiretos, como a análise de ondas sísmicas.
“Você pode pensar nos sismólogos como médicos que estudam os órgãos internos usando equipamentos limitados”, afirmou.