Decisão inédita em séculos impede líderes religiosos de celebrar o Domingo de Ramos em Jerusalém
Pela primeira vez em séculos, autoridades religiosas católicas foram impedidas de acessar a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, durante o Domingo de Ramos. O episódio, considerado incomum, foi confirmado pelo Patriarcado Latino de Jerusalém e ocorreu em meio a um cenário de forte tensão na região.
Líderes barrados antes de chegar ao local sagrado
De acordo com o Patriarcado, a polícia israelense impediu a entrada dos principais líderes da Igreja no local onde ocorreria a celebração. Entre os afetados está o cardeal Pierbattista Pizzaballa.
Segundo a instituição, os religiosos “foram detidos no meio do caminho, enquanto se deslocavam em caráter privado e sem quaisquer características de uma procissão ou ato cerimonial, e foram obrigados a retornar”.
O comunicado oficial destacou:
“Pela primeira vez em séculos, os líderes da Igreja foram impedidos de celebrar a Missa do Domingo de Ramos na Igreja do Santo Sepulcro”.
Igreja tem importância central para o cristianismo
O Domingo de Ramos marca o início da Semana Santa, período mais importante do calendário cristão, lembrando a entrada de Jesus em Jerusalém. A Igreja do Santo Sepulcro é tradicionalmente apontada como o local onde teriam ocorrido o sepultamento e a ressurreição de Jesus.
Diante disso, o Patriarcado afirmou:
“Este incidente constitui um grave precedente e desrespeita a sensibilidade de bilhões de pessoas em todo o mundo que, nesta semana, voltam seus olhares para Jerusalém.”
Restrições ocorrem em meio a conflito regional
A decisão das autoridades israelenses acontece em um contexto de guerra com o Irã, que tem levado à adoção de medidas de segurança mais rígidas. Entre elas, estão restrições de acesso a locais religiosos em Jerusalém Oriental, incluindo a Mesquita de Al-Aqsa e o Muro das Lamentações.
Segundo a polícia, a limitação tem como objetivo proteger a população. Em nota, a corporação afirmou que locais sagrados da Cidade Velha foram fechados por não possuírem estruturas adequadas de proteção e pela dificuldade de acesso para equipes de emergência.
Histórico de controle e exceção recente
Israel assumiu o controle de Jerusalém Oriental após a guerra de 1967. Apesar de conflitos frequentes desde então, restrições amplas ao acesso a locais sagrados — especialmente durante datas religiosas importantes — são consideradas raras.
Além disso, o Patriarcado informou que a tradicional procissão do Domingo de Ramos já havia sido cancelada previamente em razão do agravamento do conflito, que incluiu ataques com projéteis disparados pelo Irã contra Israel.
Governo israelense nega intenção maliciosa
O gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu declarou que a medida não teve motivação deliberada contra os fiéis.
Segundo o governo, “não havia nenhuma intenção maliciosa”, mas sim preocupação com a segurança dos participantes.
A nota acrescenta que as autoridades trabalham em um plano para permitir que celebrações religiosas ocorram nos próximos dias, mesmo diante das restrições.
Itália reage e critica decisão
A decisão provocou reação internacional, especialmente do governo italiano. A primeira-ministra Giorgia Meloni manifestou apoio aos líderes religiosos impedidos de entrar no local.
“O Santo Sepulcro em Jerusalém é um lugar sagrado do cristianismo e, como tal, deve ser preservado e protegido”, afirmou.
Ela classificou a medida como “um insulto não apenas aos fiéis, mas a toda comunidade que reconhece a liberdade religiosa”.
O ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, também criticou a ação, considerando-a inaceitável. Ele anunciou que o embaixador italiano em Israel protestaria formalmente e que o representante israelense em Roma seria convocado.
Outras restrições religiosas intensificam críticas
As limitações não se restringem aos cristãos. O número de judeus autorizados a rezar no Muro das Lamentações foi reduzido a 50 por dia, enquanto muçulmanos estão impedidos de acessar a Mesquita de Al-Aqsa desde o início do conflito, inclusive durante o mês do Ramadã.
Países como Arábia Saudita, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Catar, Indonésia, Paquistão, Egito e Turquia também condenaram as restrições, classificando-as como discriminatórias e uma “violação flagrante” do direito internacional.
Apelo por respeito às celebrações religiosas
Durante missa no Vaticano, o Papa Leão XIII afirmou que suas orações estão voltadas aos cristãos do Oriente Médio, que enfrentam dificuldades para celebrar os ritos religiosos.
Ele destacou que muitos fiéis “não podem observar plenamente as liturgias destes dias santos” em razão do conflito.