Jornal alerta para impacto na percepção pública e fala em desgaste da credibilidade do Judiciário
A Folha de S.Paulo publicou neste sábado (10) um editorial em que chama atenção para um movimento recorrente após nomeações ao Supremo Tribunal Federal (STF): o crescimento expressivo da procura por escritórios de advocacia ligados a parentes de ministros da Corte. Nos bastidores, o fenômeno é conhecido como “filhotismo”.
Segundo o jornal, a prática não é nova, mas ganhou relevância recente por se somar a outros episódios que vêm afetando a imagem institucional do STF perante a opinião pública.
Levantamento mostra salto expressivo de processos
O editorial se apoia em um estudo do economista Bruno Carazza, divulgado pelo Valor Econômico, que analisou a atuação de nove advogados — filhos ou cônjuges de ministros do STF — antes e depois da posse dos magistrados.
De acordo com os dados, o número de processos desses profissionais no STF saltou de 80 para 170. Já no Superior Tribunal de Justiça (STJ), o aumento foi ainda mais acentuado: de 278 para 1,3 mil ações. A própria Folha ressalta que os números são conservadores, pois não consideram sócios dos escritórios.
Percepção pública é o ponto central da crítica
O jornal destaca que o crescimento da demanda não configura, por si só, ilegalidade, mas levanta um problema relevante do ponto de vista institucional. No editorial, a Folha afirma:
“É difícil afastar a ideia de que quem contrata um advogado parente de ministro da mais alta corte constitucional mira não somente a excelência dos serviços jurídicos prestados, mas também a influência do magistrado”.
Para o jornal, ainda que não haja interferência direta, a suspeita de favorecimento é suficiente para comprometer a confiança da sociedade.
Erosão da credibilidade e episódios recentes
Na avaliação da Folha, esse tipo de prática “erode a própria credibilidade do Judiciário” e se soma a outros fatos que vêm desgastando a imagem do STF. O editorial cita, entre os exemplos, eventos luxuosos financiados por empresas com interesses em julgamentos e relações consideradas inadequadas entre ministros e partes interessadas.
Entre os casos mencionados estão a viagem do ministro Dias Toffoli em avião de empresário ligado ao Banco Master e o contrato de R$ 129 milhões firmado entre a instituição financeira e o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes.
Defesa de código de conduta para o STF
Diante desse cenário, a Folha defende a adoção de um código de conduta específico para o STF, nos moldes do que já existe em países como Alemanha e Estados Unidos. A proposta chegou a ser apresentada pelo presidente da Corte, Edson Fachin, mas enfrenta resistência interna entre os ministros.
O editorial conclui destacando que a força das decisões do Supremo depende da confiança da sociedade. Como resume o texto:
“A legitimidade das decisões do STF depende de que elas sejam percebidas pela população, ao menos como não enviesadas.”