Tatiana Coelho De Sampaio, Pesquisadora Responsável Pelo Desenvolvimento Da Polilaminina Tatiana Coelho De Sampaio, Pesquisadora Responsável Pelo Desenvolvimento Da Polilaminina

Falta de recursos levou Brasil a perder patente internacional da polilaminina, diz pesquisadora

Tatiana Coelho de Sampaio diz que cortes orçamentários entre 2015 e 2016 inviabilizaram manutenção no exterior

A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) deixou de manter a patente internacional da polilaminina após interromper o pagamento das taxas obrigatórias no exterior. Segundo a pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, responsável pelo desenvolvimento da substância, a perda ocorreu em meio aos cortes orçamentários enfrentados pela instituição entre 2015 e 2016.

De acordo com Tatiana, o pedido de patente foi protocolado em 2007, quando o projeto ainda estava em fase inicial. A concessão, porém, só ocorreu em 2025. “Demorou 18 anos”, afirmou em entrevista que ganhou repercussão nas redes sociais nos últimos dias. Como a proteção tem duração total de 20 anos, restam apenas dois anos de exclusividade no .

“A UFRJ teve um corte de recursos, em particular foram muitos cortados na época de 2015 e 2016, aí não tinha dinheiro para pagar”, relatou. “Parou de pagar as patentes internacionais, perdemos tudo internacional e ficamos só com a nacional, que paguei do meu bolso por um ano, para não perder.”

Questionada sobre a possibilidade de reativar o registro fora do país, a pesquisadora respondeu: “Não pode, parou de pagar, perde”. Com isso, empresas estrangeiras passam a poder reproduzir a tecnologia sem restrições internacionais.

A patente brasileira segue válida, mas apenas pelos dois anos restantes de proteção. “Depois que passa 20 anos, todo mundo pode produzir”, explicou Tatiana.

Cortes na educação durante o segundo mandato de Dilma

Os cortes mencionados pela pesquisadora ocorreram no segundo mandato da presidente Rousseff. No início de 2015, o publicou decreto limitando gastos dos ministérios. A pasta da foi uma das mais atingidas, com redução aproximada de R$ 600 milhões por mês.

Universidades federais passaram a relatar dificuldades para manter contratos essenciais. O Museu Nacional, vinculado à UFRJ, chegou a fechar temporariamente por falta de recursos destinados a serviços de vigilância e limpeza. Ao longo de 2015, o Ministério da Educação perdeu R$ 10,5 bilhões, cerca de 10% do orçamento, em meio ao ajuste fiscal.

O período também foi marcado por mudanças no comando do MEC. Em 2015, três ocuparam o cargo: Cid Gomes permaneceu pouco mais de dois meses; Renato Janine Ribeiro ficou cerca de cinco meses; e Aloizio Mercadante reassumiu a pasta em outubro daquele ano.

Substância é estudada para recuperação de lesões medulares

A polilaminina foi tema da reportagem especial “De volta ao próprio corpo”, publicada na Edição 296 da Revista Oeste. O material detalha o desenvolvimento da substância, criada a partir da laminina — proteína natural do organismo — e aplicada experimentalmente em pacientes com lesão medular.

Produzida com material obtido da placenta humana e reorganizado em laboratório, a polilaminina busca estimular o crescimento das fibras responsáveis pela condução de impulsos cerebrais ao restante do corpo. Em lesões medulares graves, essas fibras são rompidas, interrompendo movimentos e sensibilidade.

Entre 2016 e 2021, oito pacientes com lesões classificadas como completas receberam aplicação experimental durante cirurgia de descompressão da medula, até 72 horas após o trauma. Seis deles apresentaram recuperação parcial ou significativa de movimentos. Testes em animais também indicaram retomada de locomoção em diferentes níveis.

Apesar dos resultados, a substância ainda não tem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para uso comercial. O projeto aguarda o avanço das etapas clínicas exigidas para eventual registro.


Veja também

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *