Relatório técnico aponta ausência de documentação em cerca de 75% das operações analisadas
O Instituto Nacional do Seguro Social detectou um cenário de irregularidades sistêmicas nas operações de crédito consignado realizadas pelo Banco Master. A constatação consta em uma investigação conduzida por áreas técnicas do INSS e concluída em novembro do ano passado, que analisou contratos firmados com aposentados e pensionistas.
De acordo com o relatório, mais de 250 mil contratos não tiveram comprovação documental apresentada pela instituição financeira. Esse volume corresponde a cerca de 75% de um total aproximado de 340 mil operações informadas pelo banco no período compreendido entre outubro de 2021 e setembro de 2025.
Falha considerada grave e insanável
A conclusão dos técnicos do INSS é de que a ausência de documentação configura uma “falha grave e insanável”, suficiente para colocar em dúvida tanto a existência jurídica dos contratos quanto o consentimento dos beneficiários que tiveram valores descontados diretamente de seus benefícios previdenciários.
Segundo a análise, a falta de provas inviabiliza a validação das operações e compromete a segurança jurídica do sistema de consignados.
Crescimento considerado atípico
O relatório também chama atenção para a rápida expansão da carteira de consignados do Banco Master. Dados oficiais indicam que, até novembro de 2022, a instituição possuía apenas um contrato ativo com beneficiários do INSS. Já em dezembro do mesmo ano, esse número saltou para mais de 100 mil contratos.
Para os técnicos do instituto, o crescimento abrupto em um intervalo tão curto de tempo é atípico e reforça a suspeita de que a expansão ocorreu sem o devido lastro documental.
As informações vieram a público por meio de reportagens baseadas em documentos internos do INSS, obtidos pelo jornal O Estado de S. Paulo.
Problemas de transparência nos contratos
Além da inexistência física da maioria dos contratos, os auditores do INSS verificaram que os poucos documentos disponíveis no sistema e-Consignado apresentavam padrão genérico e padronizado, sem dados essenciais para o consumidor.
Entre as informações ausentes ou incompletas estão taxa de juros, número de parcelas, limite de crédito e forma de pagamento. Para o instituto, essa prática viola princípios básicos de transparência previstos no Código de Defesa do Consumidor e em Instrução Normativa do próprio INSS, editada em 2022.
Segundo o relatório, a falha compromete a capacidade do segurado de compreender a real extensão da dívida assumida.
Acordo com o INSS não foi renovado
O Banco Master mantinha um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) com o INSS desde 2020, que permitia a oferta de crédito consignado aos beneficiários. A última renovação ocorreu em 2022, com assinatura do então diretor de Benefícios do instituto, Edson Yamada.
Em outubro do ano passado, o INSS decidiu não renovar o acordo, que expirou oficialmente em 18 de setembro, retirando o banco do credenciamento para realizar novas operações de consignado.
Conexões com investigação da Polícia Federal
Edson Yamada é citado em investigações da Polícia Federal por manter sociedade com José Carlos Oliveira, ex-ministro do Trabalho. As apurações ocorrem no âmbito da Operação Sem Desconto, que investiga descontos indevidos bilionários aplicados sobre benefícios previdenciários.
Por decisão do Supremo Tribunal Federal, assinada pelo ministro André Mendonça, José Carlos Oliveira passou a ser monitorado por tornozeleira eletrônica. Tanto ele quanto Yamada já negaram irregularidades em manifestações anteriores.