Investigação revela esquema de lavagem de dinheiro em sete meses com empresas de fachada e notas frias
A Polícia Civil de São Paulo deflagrou nesta quinta-feira (12) a Operação Dark Trader, que resultou no bloqueio judicial de até R$ 1,1 bilhão atribuídos a um grupo empresarial do setor de eletrônicos, apontado como de origem chinesa e com atuação na capital paulista.
A medida, tecnicamente chamada de sequestro de bens, impede que os investigados vendam, transfiram ou utilizem o patrimônio até a conclusão do processo.
Segundo as autoridades, há indícios de conexão dos envolvidos com uma organização criminosa chinesa e com integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Bloqueio foi autorizado pela Justiça
O bloqueio foi autorizado pela Justiça após solicitação do Ministério Público do Estado de São Paulo, com apoio da Secretaria de Estado da Fazenda.
A força-tarefa mobilizou 143 agentes públicos para cumprir três mandados de prisão e 20 mandados de busca e apreensão nos estados de São Paulo e Santa Catarina.
De acordo com a investigação, o montante bilionário teria sido movimentado em apenas sete meses por meio de um esquema estruturado para ocultar a origem dos recursos.
Como funcionava o esquema
As vendas eram realizadas por uma empresa formalmente constituída. No entanto, os pagamentos eram direcionados a companhias registradas em nome de terceiros, conhecidas como “empresas de fachada” — criadas apenas para movimentação financeira, sem atividade econômica real.
Essas estruturas operavam como contas intermediárias, dificultando o rastreamento do dinheiro.
Paralelamente, notas fiscais eram emitidas por outras pessoas jurídicas, inclusive com a utilização de notas fiscais frias, ou seja, documentos emitidos sem que a operação comercial tivesse ocorrido de fato.
Esse mecanismo gerava divergência entre o faturamento real e o patrimônio oficialmente declarado.
Segundo a Secretaria da Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo, o modelo permitia ocultar receitas e reduzir a exposição ao Fisco.
Bens de alto padrão e dezenas de contas bloqueadas
O Grupo de Atuação Especial de Persecução Patrimonial informou que, entre os bens já identificados e bloqueados, estão ao menos R$ 25 milhões em imóveis de alto padrão, veículos e dezenas de contas bancárias registradas em nome de “laranjas” — pessoas que emprestam o nome para ocultar os verdadeiros proprietários.
Ao todo, 32 pessoas são investigadas, sendo 18 pessoas físicas e 14 pessoas jurídicas. Além disso, 36 contas bancárias foram monitoradas e bloqueadas.
A apuração também identificou que alguns dos sócios formais possuem histórico criminal e ligação com facções. Segundo a polícia, isso ajudaria a afastar os reais beneficiários do esquema e dificultar a responsabilização dos envolvidos.
Estrutura interna da organização
Conforme o Ministério Público, o líder da organização seria responsável por direcionar grandes quantias às empresas fictícias, coordenando a emissão das notas fiscais frias e a redistribuição dos valores.
Contadores ligados ao grupo teriam atuado na formalização documental e na fragmentação das quantias movimentadas.
Há ainda uma coordenadora apontada como responsável pela articulação interna da estrutura, além de integrantes encarregados de simular operações comerciais em nome das empresas de fachada.
Os indícios de crimes fiscais detectados durante a investigação serão encaminhados aos órgãos competentes para abertura de procedimentos específicos. A apuração prossegue com a análise de documentos e movimentações financeiras.