Estudo aponta influenza D e coronavírus canino como potenciais ameaças futuras à saúde global
Pesquisadores estão em alerta para dois vírus de origem animal que, apesar de ainda pouco familiares ao público, podem representar risco de epidemias ou pandemias no futuro. A preocupação foi destacada em um estudo publicado em janeiro na revista Emerging Infectious Diseases, vinculada ao CDC (Centers for Disease Control and Prevention) dos Estados Unidos.
O estudo foca em dois vírus: o influenza D, amplamente encontrado entre animais, e o coronavírus canino recombinante HuPn-2018, identificado em pessoas com infecção respiratória.
Segundo os autores, esses vírus circulam silenciosamente, com baixa vigilância, e têm potencial de sofrer mutações que podem facilitar a transmissão entre humanos.
Influenza D: exposição humana é comum e subestimada
O vírus influenza D foi descoberto pela primeira vez em 2011, infectando porcos com sintomas respiratórios. Desde então, foi identificado em diversos animais, incluindo bois, camelos, cervos e outros mamíferos.
Embora pertença à mesma família dos vírus da gripe humana, o influenza D é geneticamente diferente. Estudos mostram que o contato humano com o vírus é frequente, especialmente entre trabalhadores rurais que lidam com gado.
Uma pesquisa feita na Flórida revelou que mais de 97% desses trabalhadores tinham anticorpos contra o vírus, o que sugere exposição recorrente, ainda que assintomática.
Além disso, modelos experimentais indicam que o influenza D pode:
- Infectar células humanas;
- Ser transmitido pelo ar em condições laboratoriais.
Na China, estudos apontam que até 73% dos pacientes com sintomas respiratórios possuíam anticorpos para o vírus, sugerindo uma possível adaptação ao corpo humano. Até o momento, porém, não há registro de casos graves em humanos.
HuPn-2018: coronavírus canino com potencial oculto
O HuPn-2018 é um coronavírus recombinante, inicialmente detectado em 2021, em um paciente com pneumonia na Malásia. Ele contém material genético híbrido, resultante de coronavírus de cães e gatos.
Casos semelhantes foram detectados em pessoas com infecção respiratória na Tailândia, Vietnã e Estados Unidos, o que indica uma circulação mais ampla do que se supunha.
Um grande desafio é que exames laboratoriais comuns não detectam o HuPn-2018, o que pode levar a subnotificação de casos e dificultar a resposta em saúde pública.
Por que esses vírus preocupam os cientistas?
Os autores do estudo lembram que grandes pandemias recentes, como a gripe A (H1N1) e a Covid-19, também começaram com vírus de origem animal.
O alerta maior está na falta de monitoramento ativo. No caso do influenza D e do HuPn-2018, os principais pontos críticos são:
- Falta de testes específicos
- Baixa vigilância epidemiológica
- Dados limitados sobre os impactos reais na saúde humana
Isso significa que esses vírus podem estar se espalhando de forma silenciosa, aumentando o risco de uma adaptação eficaz ao ser humano e de uma crise sanitária inesperada.
O que os pesquisadores defendem?
Para mitigar os riscos, os especialistas sugerem:
- Expandir a vigilância em humanos e animais, especialmente em áreas rurais;
- Desenvolver testes diagnósticos específicos para os vírus;
- Investir em pesquisa para entender melhor a evolução e adaptação desses agentes infecciosos.