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Governo comemora recorde; contribuinte paga a festa

Quando a arrecadação bate recorde, a economia respira — ou o Estado aperta mais?

O celebrou: R$ 222,1 bilhões arrecadados em fevereiro de . Recorde em 32 anos para o mês. Alta real de 5,7% sobre fevereiro do ano passado. No primeiro bimestre, R$ 550,1 bilhões. Outro recorde. Os números impressionam. E é justamente aí que começa o problema.

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Porque recorde de arrecadação não é, por si só, medalha de boa gestão. Pode ser também sinal de um Estado mais pesado, mais faminto, mais eficiente em retirar da sociedade o que ela produz. E, no caso brasileiro, convém desconfiar do entusiasmo oficial.

A Receita aponta os motores do crescimento: contribuição previdenciária, PIS/Cofins, IRRF sobre rendimentos de capital e IOF. Traduzindo do burocratês: folha, consumo, investimento e crédito. Ou seja, o governo arrecadou mais em cima de quem trabalha, de quem consome, de quem aplica e de quem financia a própria vida. Nada exatamente revolucionário. Apenas o velho método brasileiro de fazer caixa sem reformar o Estado.

Mas há um detalhe.

Entre os destaques está o IOF, com R$ 8,7 bilhões e salto de 35,7%. Não por acaso, a própria Receita admite o efeito do aumento do imposto no ano passado. Eis a mágica de Brasília: eleva-se a carga, depois vende-se o resultado como prova de vigor econômico. Como se tirar mais de operações financeiras fosse sinônimo automático de prosperidade. Não é. Muitas vezes é apenas um jeito mais discreto de punir o crédito e encarecer a vida de empresas e famílias.

O IRRF sobre rendimentos de capital também avançou fortemente, chegando a R$ 11,6 bilhões, alta de 19,4%, impulsionado pelos títulos de renda fixa. O que isso mostra? Em parte, um mercado ainda atraído por juros e aplicações conservadoras. Em parte, mais mordida estatal sobre a renda financeira. O governo agradece. O investidor paga. E depois ouvimos discursos inflamados sobre incentivo ao crescimento e à formação de poupança.

Agora compare.

Quando o setor privado lucra, o discurso oficial costuma vir carregado de suspeita moral. Quando o Estado arrecada cada vez mais, o tom muda: responsabilidade fiscal, solidez, confiança. Curioso, não? O lucro privado vira problema. A voracidade pública vira virtude.

Também chama atenção o avanço do PIS/Cofins, que somaram R$ 47,7 bilhões, alta de 8,45%, puxados pelo setor de serviços. Mais uma vez, o governo lê esse dado como reflexo positivo da economia. Pode ser. Mas também revela outra coisa: o setor que mais emprega e mais sustenta a vida urbana brasileira continua servindo de base para uma tributação complexa, cumulativa e sufocante. O Estado não simplifica. O Estado arrecada. E depois promete simplificar algum dia, em algum projeto, em alguma comissão, em algum seminário.

O IPI subiu 10%. A contribuição previdenciária ajudou no resultado. As receitas administradas pelo Fisco cresceram 6,17%. Tudo muito robusto no papel. Só que a pergunta relevante não é quanto entrou. É o que será feito com esse dinheiro. O histórico recomenda cautela. Aliás, recomenda desconfiança.

Porque o tem uma especialidade: arrecadar como país rico e entregar serviços de país travado. A carga sobe. O discurso sobe. A propaganda sobe. Já a eficiência do gasto público continua debatendo-se entre promessas antigas e prioridades sempre convenientes ao governo da vez.

E é aí que a história complica.

A meta fiscal de 2026 prevê superávit primário de R$ 34 bilhões, algo em torno de 0,25% do PIB. O Orçamento fala em saldo positivo de R$ 34,5 bilhões. O Planalto, evidentemente, tentará usar o recorde como prova de responsabilidade. Mas responsabilidade de verdade não se mede apenas pelo apetite arrecadatório. Mede-se pela disposição de cortar desperdício, rever privilégios, conter a expansão da máquina e parar de tratar o contribuinte como uma fonte inesgotável de salvação fiscal.

Sem isso, o recorde vira apenas uma fotografia enganosa. Bonita para a coletiva. Péssima para o país.

Porque há uma contradição central aqui: o governo quer ser elogiado por arrecadar mais, mas evita o debate sério sobre por que precisa arrancar tanto da economia para produzir resultados tão modestos. Fala-se em ajuste tributário. Quase nunca em ajuste do Estado. Cobra-se mais da sociedade. Exige-se menos de Brasília.

No fim, o recorde de fevereiro diz muito menos sobre a saúde do país do que sobre a fome do poder público. E a pergunta permanece, incômoda, inevitável: quando a arrecadação bate recorde atrás de recorde, quem está realmente prosperando — o Brasil ou apenas o governo?


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