Entre promessas grandiosas e execução tímida, governo entrega apenas 12% das obras educacionais previstas.
Quantas creches cabem em um discurso?
A pergunta parece provocativa — e é. Porque quando se observa o ritmo real das obras educacionais prometidas pelo governo federal, o contraste entre narrativa política e realidade administrativa fica evidente.
Segundo dados obtidos pela imprensa a partir de painéis oficiais do próprio governo, a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva concluiu apenas 12% das 6.227 obras de educação previstas até o início de março. Em um programa anunciado como vitrine social — o chamado Novo PAC — o resultado concreto, até agora, é modesto.
Entre 2.443 obras novas cadastradas em 1.753 municípios, apenas uma foi efetivamente entregue: uma creche em Assaré, no Ceará, iniciada em 2024.
Uma.
Enquanto isso, 1.069 obras estão em execução, 572 ainda estão em licitação e 775 continuam apenas cadastradas, sem sequer terem saído do papel. Outras 24 já foram canceladas.
O dado talvez mais revelador esteja no dinheiro. Dos R$ 15 bilhões previstos para obras educacionais dentro do Novo PAC, apenas R$ 1,2 bilhão foi efetivamente pago. Ou seja: 8% do total anunciado.
É difícil ignorar a ironia política. O governo que mais enfatiza a educação como prioridade nacional entrega, até agora, uma execução financeira que lembra mais um projeto piloto do que um programa estrutural.
E isso ocorre em um país onde 826 mil crianças aguardam vaga em creches.
A demanda está lá. Os recursos foram prometidos. O programa foi anunciado com pompa. O que falta, então?
Gestão.
O governo argumenta que a execução das obras depende de estados e municípios, responsáveis pela contratação das construções. É verdade — e essa é justamente a natureza federativa do sistema brasileiro. Mas essa explicação levanta outra pergunta inevitável: se o modelo de execução é compartilhado, por que anunciar metas nacionais grandiosas sem garantir a capacidade administrativa para cumpri-las?
A política pública não se mede pela intenção. Mede-se pelo resultado.
O Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação afirma que os recursos estão garantidos e seguem o fluxo administrativo regular. Tecnicamente, pode ser verdade. Politicamente, no entanto, a questão é outra: fluxo regular não constrói creches se o processo continua emperrado em licitações e repactuações.
O próprio governo reconhece a dimensão do problema ao citar o Pacto de Retomada de Obras Paradas, lançado em 2023 para concluir construções interrompidas em gestões anteriores.
O diagnóstico era alarmante: 5.642 obras educacionais paralisadas no país.
Desde então, 721 foram concluídas, o que demonstra algum avanço. Mas o retrato completo ainda é incômodo: 486 continuam paralisadas e 718 foram canceladas, representando 32% das obras repactuadas.
Ou seja, mesmo quando o objetivo é simplesmente terminar obras já iniciadas, o Estado brasileiro continua patinando.
E aqui surge uma contradição recorrente do debate político nacional.
Governos costumam anunciar novos programas com enorme impacto retórico — PACs, pactos, planos, seleções, programas estruturantes. Mas raramente enfrentam a pergunta essencial: por que o Estado brasileiro tem tanta dificuldade para concluir aquilo que já começou?
Não faltam leis. Não faltam programas. Não faltam discursos.
Falta execução.
A ironia é que a política brasileira costuma medir sucesso pela quantidade de anúncios, não pela quantidade de obras concluídas. A lógica eleitoral valoriza a promessa; a lógica administrativa exige resultado. E entre uma coisa e outra surge o atraso crônico que se repete gestão após gestão.
No caso da educação infantil, o impacto é concreto: famílias esperando vagas, municípios pressionados e uma política pública que avança a passos muito mais lentos do que o discurso sugere.
Creches não são abstrações ideológicas. São prédios, professores, vagas e crianças atendidas.
E enquanto a política discute narrativas, a pergunta que permanece é simples — e incômoda:
Se o governo prometeu milhares de novas escolas e creches, por que o país ainda vê tão poucas saindo do papel?